Saúde mental no ambiente de trabalho

Por Prof.ª Fabíola Furlan

A pandemia da COVID-19 potencializou os problemas de saúde mental já presentes, há décadas, nas organizações. Os fatores causadores dessas enfermidades são a modificação profunda de nossas formas de trabalhar (trabalho por projeto, trabalho precarizado, trabalho intermitente), a paranoia do desemprego, a prática do bullying ostensivo e as lideranças tóxicas. Tudo isso gera verdadeiras fontes de insalubridade mental. Questões como estresse, ansiedade, depressão, burnout dentre outras enfermidades têm afetado cada vez mais o dia a dia e os resultados de pequenos, médios e grandes negócios.

Em resposta a esse ambiente, muitas organizações investiram em novas iniciativas ou ampliaram as existentes, como campanhas, terapia, programas de apoio e aplicativos de saúde mental. Gerando um ambiente de trabalho voltado para o cuidado das pessoas e como pilar da estratégia de negócios, reconhecendo a importância de um estado psicológico equilibrado para o bem-estar e impactos diretos na produtividade, satisfação profissional e qualidade de vida.

Saúde Mental no Ambiente de Trabalho: o que é?

Saúde mental no ambiente de trabalho refere-se ao bem-estar psicológico dos colaboradores no contexto profissional. Envolve equilíbrio emocional, resiliência e satisfação no trabalho, indo além da ausência de adoecimento mental.

Ter uma boa saúde mental no trabalho significa gerar um ambiente que promova o bem-estar psicológico das pessoas englobando vários aspectos, como estresse, pressão e outras situações, incluindo clima e cultura organizacional positivos, gestão humanizada e eficaz, apoio social e equilíbrio entre vida profissional e pessoal.

Impactos dos problemas de saúde mental para o trabalho 

A saúde mental desempenha um papel crucial no ambiente de trabalho, impactando diretamente diversos aspectos do desempenho e da dinâmica profissional. Os últimos anos vieram para mostrar que vários episódios que acontecem dentro do ambiente de atuação, ou durante o convívio com os demais funcionários, acabam afetando o equilíbrio emocional e psicológico de muitas pessoas.

O resultado disso é visto não só no baixo desempenho dos colaboradores, mas no desenvolvimento de adoecimento mental. Problemas que impactam a saúde física e, consequentemente, tiram a qualidade de vida. Dependendo da gravidade, o problema da saúde mental no trabalho pode incapacitar o profissional e impossibilitar que ele continue com a carreira, até se tratar adequadamente. Diante disso, a empresa também sai perdendo, não só no baixo desempenho da empresa e, também, sobrecarregando os funcionários presentes.

O que prejudica a saúde mental do trabalhador dentro e fora da empresa? 

Há uma grande variedade de adoecimento mental que pode afetar os colaboradores. Entre eles, podemos destacar quatro, conforme artigo da Associação Nacional de Medicina do Trabalho, devido a  recorrência com a qual aparecem quanto pela gravidade que têm — levando as pessoas ao afastamento temporário ou por tempo indeterminado. Esses adoecimentos são: ansiedade, depressão, transtorno do pânico e síndrome de burnout.

Por conta disso, surgem diferentes sintomas físicos e emocionais que atrapalham o dia a dia. É o caso de fadiga mental, dores de barriga, sudorese intensa, insônia, compulsão alimentar, humor constantemente irritado, entre outros.

As causas desses adoecimentos são: jornadas de trabalho exaustivas, imposição de metas abusivas, falta de reconhecimento e de autonomia no trabalho, modelos e práticas de gestão/liderança inadequadas e assédio dos mais variados tipos são algumas das possíveis causas de tantos afastamentos no trabalho, ligados à saúde mental.

Não é à toa que uma nova lei, de número 14.831/2024, instituiu no Brasil o Certificado Empresa Promotora da Saúde Mental, e a atualização da Norma Regulamentadora (NR-1) que impõe novas diretrizes às empresas para mitigar fatores psicossociais que causam enormes impactos na saúde mental dos trabalhadores: ou seja, segurança e saúde no trabalho agora incluem riscos psicossociais. Além disso, a “Harvard Business Review” dedicou quase uma edição inteira sobre como liderar um time exausto e estressado. Portanto, tudo isso são indícios de como os transtornos mentais se alastram interferindo na saúde e na performance não só de quem está no topo, mas em todos os níveis do mundo corporativo.

Como preservar a saúde mental no ambiente de trabalho? 

O mundo do trabalho mudou e ainda esperamos velhos padrões da liderança, pois habita em nosso imaginário uma abordagem de liderança e gestão de comando, controle e rigidamente hierarquizada. Isso fez sentido a tempos atrás, já que o trabalho foi por mais de um século organizado sequencialmente e em silos, com posições fixas, espaços de trabalho físicos e informações que sempre fluíam do topo para baixo.

Hoje a verdadeira vantagem competitiva entre as empresas passou a ser seu conhecimento, especialização, experiência, know-how, ou seja, o seu capital intelectual.  Esse capital intangível está disperso na cabeça das pessoas que integram uma organização. Gerir e liderar correta e adequadamente os colaboradores, as relações entre eles e os conhecimentos que eles levam em suas mentes, é ter uma vantagem competitiva sustentável.

Gerar um ambiente de trabalho saudável, positivo e produtivo, requer uma abordagem inovadora, proativa e abrangente. Aqui estão algumas práticas para promover o bem-estar psicológico e emocional:
Abrindo o diálogo sobre saúde mental: estimule um ambiente onde os colaboradores se sintam confortáveis para falar sobre saúde mental. Realize sessões informativas, workshops ou palestras que promovam a conscientização e reduzam o estigma em torno do tema;
Oferecendo benefícios de saúde mental: além de benefícios tradicionais, como planos de saúde que incluam cobertura para tratamentos psicológicos, considere parcerias com aplicativos de bem-estar mental, serviços de psicoterapia online e programas de saúde mental;
Criando um ambiente agradável: invista em um design de escritório que promova conforto e bem-estar. Considere a flexibilidade no espaço de trabalho (permitindo que os colaboradores personalizem seus ambientes para atender às suas necessidades);
Cultura de feedback: promova sessões regulares de reconhecimento, destacando conquistas individuais e de equipe. Integre o feedback positivo nas avaliações de desempenho e incentive colegas a reconhecerem uns aos outros. Essa prática não apenas incentiva o crescimento profissional, mas também contribui para um ambiente de trabalho positivo;
Atenção com a sobrecarga de trabalho: estabeleça sistemas de monitoramento para avaliar a carga de trabalho e identificar potenciais pontos de estresse. Encoraje uma cultura que valorize a eficiência e a delegação de tarefas quando necessário. Promova práticas como a gestão eficaz do tempo e a definição de prioridades.

A importância do autocuidado

O cuidado de si, chamado de autocuidado, trata-se do conjunto de atividades que a própria pessoa executa, consciente, em seu benefício para a manutenção da vida, da saúde e do bem-estar. Portanto, o autocuidado é um conjunto de hábitos, posturas e valores que objetivam o bem-estar emocional, psicológico e físico. Como engloba múltiplas esferas da nossa vida, é muito eficiente para cuidar da saúde mental.

Para ter uma ideia de como anda a sua saúde mental, você pode refletir sobre a qualidade das suas emoções e pensamentos. Ultimamente, você tem se sentido cansado, irritado, triste, desmotivado ou entediado? A sua mente é dominada por pensamentos negativos que aprofundam o seu mau humor? Se você não consegue se lembrar da última vez que sentiu uma abundância de emoções boas ou sensação de paz interior, está na hora de começar a refletir sobre a saúde mental e a importância do autocuidado.

O cuidado faz parte da nossa vida, desde pequenos somos cuidados pelos outros, pela família, pela escola, e com as experiências vividas aprendemos também a cuidar. Porém, muitas vezes nos preocupamos apenas em cuidar do corpo e nos esquecemos de que é importante também cuidar da saúde da mente, o equilíbrio entre a saúde física e mental deve ser a nossa verdadeira prioridade.

O autocuidado é um processo intransferível, que envolve tomar decisões difíceis, como entrar em contato com dores e traumas, encontrar a própria voz e estabelecer limites. Nos tornarmos guardiões de nós mesmos resolve uma boa parte dos nossos problemas relativos à nossa saúde mental.

Considerações finais

Os sinais mais subjetivos (angústia, medo, insatisfação) constituem a semente, o germe de manifestações de doenças mentais ou psicossomáticas. Estas últimas podem ser entendidas como um estágio avançado do sofrimento, que não pode mais ser calado, pois os atestados, as faltas e a diminuição de produtividade delatam que algo não vai bem com a saúde de determinado colaborador.

É evidente que comportamentos autoritários e agressivos por parte das lideranças não são mais aceitos, porque levam à perda de talentos, baixa performance, queda do engajamento e ambiente de trabalho que compromete a saúde mental. No entanto, isso não pode ser confundido com a ausência de divergência de ideias e de conflitos construtivos que são parte essencial do funcionamento de um time de alto desempenho – sem eles, pode-se criar uma harmonia artificial, na qual as pessoas não se posicionam e não aderem às decisões.

Ao adotar as práticas para preservar a saúde mental no ambiente de trabalho, referidas nos itens anteriores, a empresa não apenas demonstra um compromisso genuíno com a saúde mental, mas também cria um ambiente que promove ativamente o bem-estar psicológico e emocional dos colaboradores, bem como o aumento da produtividade e da inovação na organização.

Saúde mental e
Qualidade de vida

“É um estado de bem-estar no qual o indivíduo é capaz de usar suas próprias habilidades, recuperar-se do estresse rotineiro, ser produtivo e contribuir com a sua comunidade”.